Pequeno vinhedo preserva uma tradição vitivinícola que remonta à antiga Paris
Clos Montmartre: o vinhedo que resiste no coração de Paris
Quem caminha pelas ladeiras íngremes de Montmartre, entre turistas que buscam a Sacré-Cœur e artistas de rua que perpetuam o espírito boêmio do bairro, pode se surpreender ao encontrar, escondido atrás de grades de ferro, um vinhedo no coração de Paris: o Clos Montmartre é o testemunho de uma tradição que teima em resistir à urbanização de Paris.
Para entender a importância deste pequeno pedaço de terra cultivada, é preciso voltar no tempo, à época galo romana, quando Paris e seus arredores formavam uma das principais regiões produtoras de vinho da Europa. Difícil imaginar hoje, mas até o final da Idade Média, um raio de cem quilômetros ao redor da capital francesa abrigava impressionantes 42 mil hectares de vinhedos. O vinho da época era muito mais leve em álcool, servia como alternativa segura à água não potável, sendo literalmente uma questão de saúde pública.
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As freiras
A colina de Montmartre pertencia à Abadia de Saint-Denis, assim como os vinhedos vizinhos de Clignancourt e Goutte d’Or. Mas foram as freiras da Abadia de Montmartre que, no século XII, estabeleceram as bases da viticultura local, transformando o cultivo da vinha em um negócio. Ter um vinhedo era sinônimo de riqueza e prestígio. Os vinhedos prosperaram até que, no século XIX, uma sucessão de catástrofes ocorreu.
Primeiro veio o oídio em 1845, depois a temível filoxera entre 1861 e 1863, e finalmente o míldio em 1878. Estas pragas devastaram o vinhedo europeu, e os campos ao redor de Paris não foram poupados. Quando finalmente se encontrou uma solução para combater as doenças, já era tarde demais e a especulação imobiliária havia tomado conta, e construir casas se tornou mais lucrativo que replantar videiras.
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Paris cresceu, engoliu Montmartre em 1860, e o antigo vilarejo bucólico se transformou no bairro dos cabarés e artistas que existe hoje. O Moulin Rouge girava suas pás vermelhas, Toulouse-Lautrec imortalizava a vida noturna, e as últimas videiras desapareciam. Até que, em 1933, algo extraordinário aconteceu.
Renascimento
Naquele ano, um grupo de artistas e moradores locais olhou para um terreno baldio na Rue des Saules – o mesmo que o desenhista Francisque Poulbot havia batizado carinhosamente de “square de la liberté” – e decidiu que ali deveria renascer a tradição vinícola de Montmartre. Com o apoio da municipalidade, plantaram as primeiras mudas, salvando o espaço da especulação imobiliária que ameaçava engolir o último pedaço verde.
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A história da primeira vindima é tipicamente parisiense em sua mistura de otimismo e improviso. Em 1934, mal um ano após o plantio, quando qualquer viticultor sabe que a vinha só produz a partir do terceiro ano, os montmartrois decidiram celebrar a Fête des Vendanges. Como fazer uma festa de colheita sem uvas? Simples: os vignerons de Beaujolais doaram suas uvas para que a celebração acontecesse. O evento teve como padrinhos ilustres os cantores Mistinguett e Fernandel.
Hoje, o Clos Montmartre abriga cerca de 2.000 plantas de videira em seus 1.500 metros quadrados. É um vinhedo que mistura 30 cepas diferentes – Pinot Noir convive com Gamay, Sauvignon divide espaço com Chardonnay, numa babel vínica que desafia todos os manuais de enologia. “É um caleidoscópio de aromas”, define Sylviane Leplâtre, engenheira agrônoma e enóloga da Ville de Paris, responsável técnica pelos vinhedos municipais. “Os taninos são muito macios, redondos. É fresco, agradável, um vinho que não se parece com nenhum outro no mundo.”
Terroir
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O Clos Montmartre contraria algumas das regras da viticultura clássica, começando por sua exposição. Enquanto os melhores vinhedos do mundo buscam o sol do sul, este olha para o norte. Para compensar, os jardineiros da cidade (são funcionários municipais que cuidam das videiras) desenvolveram técnicas especiais de poda para maximizar a captação de luz solar.
Se o cultivo é peculiar, a vinificação não fica atrás. O vinho de Montmartre ganha vida nas caves da prefeitura do 18º arrondissement, onde as uvas urbanas se transformam em cerca de 1.000 a 1.300 garrafas anuais, dependendo dos caprichos do clima parisiense.
Desde 1934, todo o lucro da venda é revertido para o Comité des Fêtes et d’Action Sociale de Montmartre, financiando projetos sociais para crianças e idosos do bairro. O vinhedo também se tornou um improvável oásis de biodiversidade urbana. Cultivado segundo princípios biodinâmicos, usando apenas cobre e enxofre como tratamentos, recebeu o selo Oasis Nature da associação do astrofísico Hubert Reeves.
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Festa da colheita
Todos os anos, quando chega outubro, Montmartre então revive seu passado rural. A Fête des Vendanges transforma as ruas em um grande teatro a céu aberto, com desfiles de confrarias báquicas, música, gastronomia e, claro, degustações do vinho local. Visitar o Clos Montmartre hoje (mediante reserva, com direito a degustação e entrada no Musée de Montmartre) é um programa interessante para quem quer entender um pouco da história do vinho parisiense.
Montmartre já abrigou a revolução artística que mudou o mundo, por que não abrigar também um vinhedo que desafia todas as convenções enológicas? No fundo, ambos compartilham a mesma essência: a capacidade de transformar o improvável em extraordinário.
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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de revistaadega.uol.com.br.